Austroposeidon
Austroposeidon magnificus
"Poseidon austral magnífico"
Sobre esta espécie
O Austroposeidon magnificus é o maior dinossauro descrito até hoje no Brasil, um titanossauro de aproximadamente 25 metros de comprimento que viveu no Cretáceo Superior da Bacia Bauru, no oeste paulista. Seu holótipo MCT 1628-R foi coletado em 1953 pelo paleontólogo brasileiro Llewellyn Ivor Price nos arredores de Presidente Prudente (SP) e permaneceu guardado por mais de 60 anos no Museu de Ciências da Terra, no Rio de Janeiro, antes de ser formalmente descrito em 2016 por Bandeira e colegas. A análise filogenética o posicionou originalmente como grupo-irmão de Lognkosauria e trabalhos subsequentes (Navarro et al. 2022) o recuperam dentro do próprio clado Lognkosauria, ao lado de gigantes argentinos como Argentinosaurus e Patagotitan. Tomografias computadorizadas das vértebras cervicais revelaram pela primeira vez em um saurópode uma estrutura interna intercalando camelas pneumáticas com densos anéis de crescimento.
Formação geológica e ambiente
Formação Presidente Prudente, parte do Grupo Bauru, Bacia Bauru. Idade campaniana a maastrichtiana inicial (~83 a 72 Ma). Litologia dominada por arenitos finos a médios com lentes de argilito, cimentação carbonática e paleossolos com calcretes. O ambiente deposicional combina sistemas fluviais meandrantes e leques aluviais em clima semiárido com forte sazonalidade. A fauna associada inclui titanossauros, terópodes abelissaurídeos, crocodilomorfos, testudines e ovos de podocnemididae.
Galeria de imagens
Reconstituição em vida do Austroposeidon magnificus, o maior dinossauro descrito até hoje no Brasil. Com aproximadamente 25 metros, rivaliza em porte com titanossauros gigantes da Patagônia.
Levi bernardo / Wikimedia Commons, CC BY-SA 3.0
Ecologia e comportamento
Habitat
Planície fluvio-aluvial semiárida do interior da Bacia Bauru, com rios meandrantes, leques aluviais e paleossolos com calcretes. Clima marcado por forte sazonalidade de chuvas e temperaturas elevadas, com vegetação dominada por gnetófitas arbustivas e coníferas de menor porte.
Alimentação
Herbívoro de alta navegação (high-browser), alcançando copas de coníferas inacessíveis a outros herbívoros. Por analogia com titanossauros mais conhecidos, deveria consumir grandes volumes de folhagem pouco mastigada, com digestão apoiada em gastrólitos e em processos fermentativos prolongados.
Comportamento e sentidos
Provavelmente gregário como a maioria dos titanossauros, andando em grupos que modificavam a estrutura da vegetação local. Não há evidências diretas (pegadas, ninhos) associadas ao Austroposeidon, mas o registro geral de titanossauros sul-americanos sustenta interpretação de vida em manadas e nidificação colonial em áreas abertas.
Fisiologia e crescimento
Tomografias realizadas por Bandeira et al. (2016) revelaram uma estrutura interna vertebral única, com camelas pneumáticas alternando com anéis densos de crescimento. Esse padrão sugere crescimento prolongado e possivelmente irregular, compatível com as estratégias de gigantismo observadas em saurópodes.
Paleogeografia
Configuração continental
Ron Blakey · CC BY 3.0 · Cretáceo, ~90 Ma
Durante o Campaniano-Maastrichtiano (~83–72 Ma), Austroposeidon magnificus habitava a Laramídia, a metade ocidental do que hoje é a América do Norte, separada pelo Mar Interior do Oeste (Western Interior Seaway), um mar raso que dividia o continente ao meio. Os continentes estavam em posições muito diferentes das atuais: a Índia viajava em direção à Ásia, a Antártida ainda estava conectada à Austrália, e a América do Sul era uma ilha separada.
Inventário de Ossos
Apenas porções da coluna vertebral foram recuperadas (cervicais posteriores, dorsais e sacral), o suficiente para demonstrar quatro autapomorfias diagnósticas, mas insuficientes para reconstruir proporções corporais precisas. As estimativas de ~25 m de comprimento são derivadas por comparação com titanossauros mais completos.
Estruturas encontradas
Estruturas inferidas
Literatura Científica
15 artigos em ordem cronológica — do artigo de descrição original até pesquisas recentes.
A new giant Titanosauria (Dinosauria: Sauropoda) from the Late Cretaceous Bauru Group, Brazil
Bandeira, K.L.N., Simbras, F.M., Machado, E.B., Campos, D.A., Oliveira, G.R. e Kellner, A.W.A. · PLOS ONE
Descrição original do Austroposeidon magnificus como novo titanossauro gigante (~25 m), grupo-irmão de Lognkosauria. Primeira descrição de um dinossauro brasileiro de porte comparável aos gigantes patagônicos. Tomografias revelam padrão inédito de anéis de crescimento alternando com camelas pneumáticas nas vértebras cervicais.
Internal vertebral structure of Austroposeidon (cervical CT scans)
Bandeira, K.L.N., Simbras, F.M., Machado, E.B., Campos, D.A., Oliveira, G.R. e Kellner, A.W.A. · PLOS ONE
Figura dedicada à estrutura interna reconstruída por tomografia, mostrando a intercalação inédita de camelas pneumáticas com anéis densos de crescimento, interpretada como possível indicador de gigantismo prolongado.
Austroposeidon locality map
Bandeira, K.L.N., Simbras, F.M., Machado, E.B., Campos, D.A., Oliveira, G.R. e Kellner, A.W.A. · PLOS ONE
Mapa geológico do Grupo Bauru com a localidade do holótipo na Formação Presidente Prudente, próximo à cidade de Presidente Prudente (SP).
A new nanoid titanosaur (Dinosauria: Sauropoda) from the Upper Cretaceous of Brazil
Navarro, B.A., Ghilardi, A.M., Aureliano, T., Díez Díaz, V., Bandeira, K.L.N. et al. · Ameghiniana
Descrição do Ibirania parva, menor titanossauro conhecido do Brasil. Na reanálise filogenética, o Austroposeidon é recuperado dentro de Lognkosauria, revisando a posição original de 2016 como grupo-irmão.
On a titanosaurid (Dinosauria, Sauropoda) vertebral column from the Bauru Group, Late Cretaceous of Brazil
Campos, D.A., Kellner, A.W.A., Bertini, R.J. e Santucci, R.M. · Arquivos do Museu Nacional
Descrição do Trigonosaurus pricei com base na 'Série B' (MCT 1488-R) de Peirópolis (MG), o mesmo acervo em que o holótipo do Austroposeidon permaneceu guardado por décadas.
On a new titanosaur sauropod from the Bauru Group, Late Cretaceous of Brazil
Kellner, A.W.A., Campos, D.A., Trotta, M.N.F., Azevedo, S.A.K., Craik, M.M.T. e Silva, H.P. · Boletim do Museu Nacional (Geologia)
Descrição de Maxakalisaurus topai (MN 5013-V), titanossauro brasileiro de ~13 m da Formação Adamantina em Minas Gerais, referido a Aeolosaurini. Um dos parentes próximos mais completos do Austroposeidon.
A new sauropod dinosaur (Titanosauria) from the Late Cretaceous of Brazil
Kellner, A.W.A. e Azevedo, S.A.K. · Proceedings of the Second Gondwanan Dinosaur Symposium, NSM Monographs
Descrição do Gondwanatitan faustoi, titanossauro do estado de São Paulo conhecido por esqueleto parcial. Primeiro titanossauro paulista bem documentado, antecedendo o Austroposeidon na mesma bacia sedimentar.
Uberabatitan ribeiroi, a new titanosaur from the Marília Formation (Bauru Group, Upper Cretaceous), Minas Gerais, Brazil
Salgado, L. e Carvalho, I.S. · Palaeontology
Descrição original do Uberabatitan ribeiroi, titanossauro da Formação Marília em Uberaba (MG), Maastrichtiano. Junto com o Austroposeidon, representa o topo tardio da linhagem titanossauriana no Brasil.
Description of a titanosaurid caudal series from the Bauru Group, Late Cretaceous of Brazil
Kellner, A.W.A., Campos, D.A. e Trotta, M.N.F. · Arquivos do Museu Nacional
Descrição de Baurutitan britoi (MCT 1490-R), titanossauro conhecido por sacro e caudais de Peirópolis (MG), Formação Serra da Galga/Marília. Comparações anatômicas suportam a distinção do Austroposeidon como táxon separado.
Osteology and systematics of Uberabatitan ribeiroi (Dinosauria; Sauropoda): a Late Cretaceous titanosaur from Minas Gerais, Brazil
Silva Junior, J.C.G., Marinho, T.S., Martinelli, A.G. e Langer, M.C. · Zootaxa
Redescrição osteológica completa do Uberabatitan ribeiroi, oferecendo contexto comparativo para o Austroposeidon e esclarecendo relações entre titanossauros maastrichtianos brasileiros.
New specimens of Baurutitan britoi and a taxonomic reassessment of the titanosaur dinosaur fauna (Sauropoda) from the Serra da Galga Formation (Late Cretaceous) of Brazil
Silva Junior, J.C.G., Martinelli, A.G., Iori, F.V., Marinho, T.S., Hechenleitner, E.M. e Langer, M.C. · PeerJ
Reavaliação da fauna de titanossauros da Formação Serra da Galga (Triângulo Mineiro). Amplia o contexto comparativo para interpretar o Austroposeidon no cenário mais amplo de titanossauros brasileiros campanianos e maastrichtianos.
New lower jaw and teeth referred to Maxakalisaurus topai (Titanosauria: Aeolosaurini) and their implications for the phylogeny of titanosaurid sauropods
França, M.A.G., Marsola, J.C.A., Riff, D., Hsiou, A.S. e Langer, M.C. · PeerJ
Novos materiais dentários do Maxakalisaurus e análise filogenética dos aeolosaurinos. Contexto sobre a linhagem à qual o Austroposeidon se aproxima nas análises mais recentes (Navarro et al. 2022).
Revisão estratigráfica da parte oriental da Bacia Bauru (Neocretáceo)
Fernandes, L.A. e Coimbra, A.M. · Revista Brasileira de Geociências
Redefinição estratigráfica da porção oriental da Bacia Bauru, separando a antiga Formação Adamantina em Vale do Rio do Peixe, São José do Rio Preto e Presidente Prudente. É sob esse novo arcabouço que o holótipo do Austroposeidon é posicionado estratigraficamente.
Sauropod dinosaurs from the Late Cretaceous Bauru Basin: a review and taxonomic update
Nascimento, L.R.S.F., Candeiro, C.R.A., Vidal, L.S., Oliveira, A.M., Dias, L.F.F. e Brusatte, S.L. · Historical Biology
Revisão compreensiva dos saurópodes da Bacia Bauru, integrando Austroposeidon, Trigonosaurus, Baurutitan, Uberabatitan, Gondwanatitan, Maxakalisaurus e Ibirania. Confirma o Austroposeidon como o maior dinossauro brasileiro nominalmente descrito.
Novos achados de répteis Permianos e Cretáceos no Brasil
Price, L.I. · Anais da Academia Brasileira de Ciências
Nota de Llewellyn Ivor Price sobre novos fósseis cretáceos coletados no interior paulista, entre os quais as vértebras que mais tarde seriam reconhecidas como holótipo do Austroposeidon. Documento histórico do trabalho de campo que originou o espécime.
Espécimes famosos em museus
MCT 1628-R (holótipo)
Museu de Ciências da Terra (CPRM/DNPM), Rio de Janeiro, Brasil
Holótipo coletado por Price nos arredores de Presidente Prudente (SP) ao longo da rodovia Raposo Tavares (BR-374), próximo ao cruzamento com a rodovia Assis Chateaubriand (SP-425). Permaneceu guardado por 63 anos até ser formalmente descrito em 2016. Está em exposição pública no Museu de Ciências da Terra junto com uma reconstituição em tamanho real de membros anteriores.
No cinema e na cultura popular
O Austroposeidon teve uma única, mas marcante, aparição na cultura popular: abre o episódio 'Forests' (S1E5) da série Prehistoric Planet da Apple TV+ em 2022. A cena retrata uma manada do titanossauro alimentando-se e derrubando árvores em uma floresta do Cretáceo Superior sul-americano, narrada por David Attenborough. Fora desta aparição, o animal permanece ausente em filmes, documentários ou jogos, o que é característico dos dinossauros brasileiros, raramente representados na mídia de massa internacional.
Classificação
Descoberta
Curiosidade
O holótipo do Austroposeidon ficou guardado por 63 anos no Museu de Ciências da Terra, no Rio de Janeiro, antes de ser formalmente descrito. Coletado em 1953 por Llewellyn Ivor Price, o material só foi reconhecido como pertencente a uma nova espécie em 2016, quando Bandeira e colegas notaram pela primeira vez um padrão único de camelas pneumáticas intercaladas com anéis densos de crescimento, visível apenas por tomografia computadorizada. Até hoje é o maior dinossauro nomeado do Brasil.